Quando a Política Caminha: Arquétipos, narrativas e o sentido dos gestos que incomodam
A chamada “caminhada pela liberdade e justiça” deve ser observada sob esse prisma. Mais do que um deslocamento físico, trata-se de um ato simbólico, cuja força está menos no destino e mais no percurso — menos na concordância e mais no impacto gerado.
Marchas e caminhadas sempre ocuparam lugar central na história política mundial. Elas não surgem para resolver problemas administrativos imediatos, mas para provocar atenção, gerar tensão simbólica e inscrever uma causa na memória coletiva. Caminhar é transformar o corpo em mensagem. É sair do espaço confortável do discurso e entrar no território do gesto.
Em tempos de polarização extrema, qualquer movimento público corre o risco de ser analisado apenas pelo filtro da simpatia ou da aversão ideológica. Isso empobrece o debate. A política, ao longo da história, nunca foi feita apenas de leis, discursos técnicos ou disputas eleitorais. Ela sempre foi construída por gestos simbólicos, ritos e narrativas capazes de mobilizar consciências.
É justamente por isso que esse tipo de ação incomoda tanto. O gesto obriga a sociedade a reagir — seja apoiando, criticando ou tentando ridicularizar. A indiferença desaparece. E, em política, não há nada mais poderoso do que romper a indiferença.
O arquétipo dominante é O Carro: a carta do movimento, da direção e do protagonismo. Ela representa aquele que sai do lugar, assume o controle da própria trajetória e segue adiante apesar das resistências. Não é o arquétipo do consenso; é o arquétipo da marcha.
Surge também a Força, que simboliza resistência emocional e autocontrole. Não há confronto físico, mas persistência. Seguir caminhando diante do deboche, da ironia e do ataque exige mais força interior do que o embate direto.
Há ainda o Louco, o arquétipo mais incompreendido. Ele representa a ousadia de romper protocolos. Todo gesto que foge ao padrão institucional é chamado de exagero, loucura ou oportunismo — até que o tempo revele seu significado. A história está repleta de atos que foram ridicularizados antes de serem compreendidos.
Quando observamos a caminhada sob uma lente simbólica — como a dos arquétipos do Tarô — o sentido se aprofunda.
Em paralelo, aparece o Eremita, indicando que toda jornada pública também é, de certa forma, uma jornada interior. Caminhar é pensar. É sustentar convicções longe do ruído imediato. Nem todo gesto político é espetáculo; alguns são rito.
Por fim, o Mago fecha o ciclo: a capacidade de transformar ação em narrativa. Nada disso existiria sem comunicação. O gesto só se torna político porque é interpretado, compartilhado, debatido e ressignificado. Aqui está a essência da política moderna: quem domina a narrativa amplia o alcance do gesto.
Então, por que tantos atacam sem ler?
Grande parte das críticas não se dirige ao conteúdo do movimento, mas sim ao personagem que o protagoniza. Isso revela uma fragilidade comum no debate público: quando falta argumento, sobra ataque pessoal.
Lógico, zombar do gesto é mais fácil do que compreendê-lo. Reduzir a ação a propaganda é mais confortável do que admitir que ela cumpre sua função simbólica. Muitos dos que criticam jamais ousariam sair da condição de comentaristas. Preferem o abrigo do deboche à exposição do protagonismo.
Mas a política não é feita por quem apenas observa. Ela é feita por quem age.
Não é necessário concordar com ideias, bandeiras ou discursos para reconhecer o valor simbólico de um movimento. Democracia madura exige capacidade de análise, não alinhamento automático.
Gestos como esse existem para gerar movimento, construir narrativa e marcar posição na história. Eles provocam, incomodam e dividem — exatamente porque cumprem sua função.
No fim, a história é seletiva.
Ela não se lembra dos que apenas comentaram.
Ela registra os que caminharam.



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