O dragão cresce com juros baixo – resumo semana 36

O arroz a 40 reais. A estrela do momento. A mídia faz reportagens em todos jornais para mostrar o aumento dos preços da sexta básica. Os jornalistas, que nada entendem de economia e muito menos de inflação, dizem que inflação é o aumento de preço dos produtos (há aqueles que afirmam que as medidas na Venezuela hermana deveriam ser implantadas aqui). Entretanto, devemos meditar sobre alguns fatores que têm impactado no mercado e fizeram com que o preço dos alimentos subisse nas prateleiras. O principal deles é o dólar.

Muitos agentes do mercado acreditam que as últimas quedas dos juros foram demasiadas. O Banco Central errou a mão. O juro baixo fez com que o capital especulativo buscasse outros mercados para fazer o carry trade. Sabemos que a economia brasileira atraia moeda estrangeira mais pelos seus juros altos do que pela pujança econômica. Por isso, o que vemos hoje é um câmbio desvalorizado e volátil.

Quando a volatilidade do dólar é muito alta, as previsões do valor futuro do câmbio tornam-se imprecisas. Prejudicam a economia. O produtor não consegue projetar seus custos e como a economia brasileira é baseada em commodities, a maioria delas cotadas em moeda estrangeira, é natural, portanto, que a cotação do dólar afete os preços do produtor. Somando a isso, temos o aumento extraordinário dos gastos do governo para salvar a economia do país das quarentenas insanas impostas por governadores e prefeitos.

O executivo irrigou a economia brasileira através da concessão de crédito para empresas, da queda dos juros e da implantação do auxílio emergencial. O pobre, que nada ganhava, passou a poder ir ao supermercado e comprar tudo o que antes aparecia em sua mesa na mesma frequência que um genro tem vontade de visitar a sogra, uma ou duas vezes por década.

Com mais moeda circulando no mercado – o que de fato é inflação -, a economia do Brasil reagiu de maneira que pegou todos de surpresa. A recuperação a partir de maio acelerou. Os pedidos aumentaram na indústria. Tanto que o crescimento dos bens produzidos no setor calculado pelo IBGE ficou acima de 8% em maio, junho e julho. No entanto, no Brasil algo sempre sai da curva. Com a indústria mostrando franca recuperação. A falta de matéria-prima fez os preços aos produtores dispararem. Falta aço, falta madeira no mercado. Resultado: o índice de preço ao produtor subiu 3,22% em julho. Deve subir mais em agosto.

Embora o IPCA mantenha-se comportado. É o IGP-M que acende o alerta sobre o dragão da inflação. Em agosto o índice subiu 2,74%. Acumulando uma alta de 9,64% no ano e 13,02% nos últimos 12 meses. Olhando detalhadamente para o índice temos os grupos matérias-primas e produtos agrícolas subindo, respectivamente, 31,15% e 17,74% no ano. O que nos leva a crer que pode ser o impacto da desvalorização da moeda.

Voltando para o caso do arroz. Os produtores amargaram anos de dificuldades no setor. Preços do produto baixo, exigências dos órgãos do governo. Nada os ajudava. Logo, jogar a culpa nos produtores é usar a velha tática socialista. Exigir a interferência do governo seria flertar com o desabastecimento mais adiante. É curioso, pois, como na imprensa as grandes varejistas têm sido bordadas como aquelas empresas que pensam no consumidor e tentam negociar preços. Como se elas não poderiam estar aproveitando o aumento da demanda por alimentos e subindo o preço nas gôndolas além do normal.

Pois bem, resta saber se este impacto é passageiro ou teremos uma inflação mais resiliente ali na frente. A certeza é única: os mesmos que gritavam fique em casa são aqueles que agora gritam contra a elevação dos preços dos alimentos. Quando o presidente Bolsonaro declarou em março que a fome mataria mais do que o vírus, os jornalistas o taxaram de louco. Hoje, porém, eles noticiam que a preocupação é com a escassez de alimentos, a fome. Quem imaginaria uma coisa dessas? Peça um delivery e fique em casa.

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