Cruzando o Rubicão para ter com Brutus – Resumo semana 17

Esta semana foi totalmente dominada pelo noticiário político doméstico e as tentativas ingentes do establishment em derrubar o governo Bolsonaro. Mas vamos fazer um esforço e tentar falar de economia. Irônico, a política está mais volátil que a própria Bolsa de Valores.

Petróleo na UTI

O petróleo está numa das semanas mais complicadas da história. O valor de referência dos Estados Unidos fechou nominalmente negativo na segunda-feira, por força matemática da liquidação dos contratos, a pior de todos os tempos. O petróleo Brent atingiu uma mínima de duas décadas na terça-feira, antes de se recuperar.

A despeito disto, a bomba de gasolina dos brasileiros não baixa. Artes da substituição tributária, médias móveis, cobranças para trás de ICMS pelos governadores que fazem o preço dos combustíveis ser rápidos para subir, lentos para cair. O tema é complicado, e é feito para ser complicado ao brasileiro médio.

Desde o começo do ano, o Petróleo já perdeu mais de dois terços de seu valor. A demanda global por combustíveis apresenta queda e a oferta vai superar a demanda nos próximos meses devido à pandemia.

A epidemia de perda de direitos

A epidemia dá sinais de que já passou do pico, e a despeito das vontades políticas, as quarentenas naturalmente tendem a ser relaxadas. Entretanto, se as quarentenas forem, nosso direitos não, consolidando jurisprudências que os mitigam. É impressionante constatar como todo nosso ordenamento jurídico possui backdoors que desativam os direitos do cidadão. O brasileiro já se deu conta que seus direitos fundamentais, lavrados em grandiloquentes cláusulas pétreas na Constituição, não resistem a um decreto – a mais frágil das normas legais – de um prefeito de alguma cidadezinha quem nem sequer tem arrecadação para pagar seus funcionários?

Em tempo, na Bolsa de Nova York ocorreu um certo rally de empresas farmacêuticas com as expectativas diante de novos remédios que possam também curar o coronavírus, além da hidrocloroquina e azitromicina. E os europeus começaram a falar grosso com a China, responsabilizando-a pela epidemia.

Establishment e Positivismo

Não há força popular e política para a intervenção militar acusada pela esquerda, nem tampouco para um impeachment do presidente, temido pela direita. Ocorreu nos últimos dias um rearranjo das forças partidárias dentro do Congresso. Isso culminou na denúncia de Roberto Jefferson de um golpe parlamentar para reconduzir Rodrigo Maia à Presidência da Câmara tendo como moeda de troca a liberação fiscal aos estados e municípios, quebrados pelas quarentenas, o impeachment de Bolsonaro. Atacando por outro lado, uma ação da OAB (sempre ela!) pediu que o Supremo exigisse que o pedido de impeachment andasse no Congresso.

A tentativa de isolar a ala anti-establishment do Governo Bolsonaro é clara. Assim se quebra a mobilização popular que tornou possível a vitória de um outsider. O problema da direita brasileira é que ela ainda acredita positivismo. A ideia de um “time técnico de Ministros” fez sucesso com o Povo e o Exército, mas politicamente não funciona, gerando pastas problemáticas como a Saúde e Justiça, onde os ministros até tinham méritos nas áreas, mas demonstraram ser desleais ao presidente. O establishment usa os “técnicos” para recuperar suas posições perdidas nas eleições. E pior, o técnico ganha uma área de intocável, mas está lá apenas para ser um quinta-coluna, um sabotador ideológico.

E o Exército? Bem, o Exército leva sempre o caixão até a cova e passa a servir ao novo senhor. É tipo Eichmann enchendo os vagões para Auschwitz e Treblinka, “mas eu só cumpria ordens!“. Este é o tipo de gestão técnica, burocracia weberiana que o pessoal adora. Se está no regimento é moral.

A lenda do veterinário técnico

Intermezzo: Era uma vez um veterinário 👨‍⚕️ muito técnico, competente no que fazia, olhava um boi 🐂 e já diagnosticava com precisão. Como não confiava na capacidade do Dono da Boiada em lhe pagar, não aceitou tratar dos bois doentes, que morreram.

Moral da História: Se você não confia no seu chefe, não adianta ser técnico ou competente. Confiança em primeiro lugar. Capacidade técnica não é o único critério.

A profecia involuntária

Até aqui falei de um príncipe, agora falarei de um monstro” disse Suetônio sobre Calígula ao retratar a aceleração de sua demência. Posso dizer o mesmo desta semana e sobre o ministro demissionário de sexta-feira. Até ali um herói, depois um monstro de ressentimento, cálculo político e traição.

Do atual presidente da OAB pode se dizer tudo, menos que seja simpático ao governo. Politicamente está a esquerda do dedo mínimo da mão esquerda. Pelas razoes erradas, foi um profeta. No domingo houve na porta da sede do Exército uma manifestação em apoio ao presidente, com sua cota de gente pedindo democraticamente intervenção militar. É um grupo antigo, e sempre atuante. O presidente foi ter com eles, e soltou um discurso anódino e genérico de três minutos, com as platitudes republicanas de sempre.

Eis que o presidente da OAB soltou que Bolsonaro atravessou o Rubicão, ou seja, foi num caminho sem volta. Achei a frase tão histriônica que não cessei de ficar pasmo com a ignorância histórica e maledicência política de seu emissor.

Mas dou o braço a torcer ao homem. De fato, Bolsonaro foi César. Não porque de fato atravessou o Rubicão, formalizou a Guerra Civil e sinalizou o fim da República, mas sim porque caiu no punhal traidor de seu afilhado Brutus.

Sexta-feira, o pedido de demissão do ministro Sérgio Moro caiu como uma bomba atômica nos mercados e no governo. Não foi um simples pedido de demissão, saiu atirando e atirando pra matar, acusando – embora sem provas – o presidente de tentativa de interferir na Polícia Federal e dando de fato um crime de responsabilidade para reviver o então morta tentativa de golpe denunciada por Roberto Jefferson. Ironicamente, é a mesma coisa que aconteceu nos EUA entre Trump e o diretor do FBI, James Comey. Roteiro igual.

No mais, os danos da saída de Moro foram no mesmo dia parcialmente mitigados por um brilhante discurso de Bolsonaro, digno de Marco Antônio ou Cícero, e a organicidade de seu apoio popular nas redes sociais. Brasileiro perdoa tudo, menos traição. O assunto está tão fresco e tem repercussões políticas tão grandes que é imprudente qualquer coisa que aqui escreva. Vai mudar mais rápido que o vai-e-vem da Bolsa.

A saída de Sérgio Moro pode ser positiva para o governo Bolsonaro, a despeito da gritaria e das angústias do mercado: o governo fica mais leal e mais focado neste momento de tensão. Num momento de stress é necessário lealdade. Não adianta ficar bonitinho jogando nas regras do bom comportamento enquanto o outro lado absolutamente não segue regra nenhuma. Os que exigem prudência e sofisticação não governam com nenhuma delas. Numa interpretação cruel do ditado “Aos meus amigos, tudo; aos meus inimigos, a lei“, não porque o inimigo tivesse descumprido a lei, mas porque teria de ter o fardo de cumpri-la, enquanto tudo seria permitido aos amigos.

Sérgio Moro inclusive disse que Bolsonaro interferia na Polícia Federal, e que o PT não o fazia. Isto é uma besteira tão grande que, com a palavra, Romeu Tuma Júnior: “Lula montou um esquema na Polícia Federal que a deixou refém da própria força repressiva, sujeito a chantagens, inclusive institucionais. Uma instituição policial usada como instrumento de governo dá abertura para que ela mesma se julgue no direito de se utilizar como instrumento de si mesma.” (livro Assassinato de Reputações: Um crime de Estado, Ed Topbooks, 2013, primeira edição pg. 463 )

Não obstante, Sérgio Moro está – com o perdão da palavra – lascado. A esquerda jamais esquecerá o mal que ele fez contra ela, e a direita pode não mais o proteger. Acho que protegerá sim, se o governo prosseguir. Mas se a saída de Moro foi a adaga de Brutus que fez César finalmente cair morto em tristeza diante de seus inimigos, então não conte com nossos Antônios e Augustos. Ou será que não? Iria a esquerda perdoar Sérgio Moro, realmente atirando Lula para lá?

A Coxinha e a Mortadela

A pergunta é: Sergio Moro agora consegue ir na padaria comer uma coxinha? De peito aberto, no meio do povão? Brasileiro perdoa tudo, menos traição. Todas as virtudes republicanas e coerência de Júnio Brutus só são celebradas pelas estudiosos. Para todos, na História, ficou apenas como o homem que traiu seu padrinho. Para os séculos apenas ecoa o grito de decepção de um homem morto a facada: ATÉ TU, BRUTUS?!

Bom, como já disse, tudo o que escrever aqui estará datado uma hora depois, tão rapidamente as coisas mudam no Brasil.

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