Os segredos do Fundo Verde Asset – parte 6

Apostando no descolamento do desempenho da bolsa brasileira das demais e na passagem do pior momento da crise, o Fundo Verde conseguiu um retorno de 7,55% nos primeiros três meses do ano. Grande parte deste lucro veio do book juros e inflação, onde mesmo realizando um lucro antes do previsto obtiveram grande desempenho.

O primeiro semestre foi espetacular para o Fundo Verde. A rentabilidade foi de 28,39%. Diante de toda a análise feita na metade de 2009, o que se destaca é o poder de previsão do gestor quanto dos problemas que o Brasil enfrentaria mais adiante. Ele previa que o mercado sofreria por causa do crédito fácil cedido a pessoas que não teriam condições de honrar os compromissos assumidos e que a economia do país iria melhorar muito antes de piorar de vez.

Desta forma, um relatório especial da gestão foi emitido em setembro de 2009 e questões abordadas desde o ano de 2008 são comentadas detalhadamente. Nele o maior destaque fica para o último parágrafo do relatório, o qual transcrevo aqui para ser fidedigno ao conteúdo: “III) Sinais de insustentabilidade da dívida de algum membro do G7: isto vai acontecer, pois não se emite US$ 4 trilhões impunemente, mas isto pode levar muitos e muitos anos e não sabemos, repetindo o que foi dito no começo do texto, qual classe de ativos vai pagar a conta primeiro.”

No décimo mês de 2009, a dicotomia entre fundamentos econômicos e timing era a preocupação do gestor em relação ao Brasil. O ano da bolsa estava sendo espetacular e a rentabilidade do fundo ainda melhor. Nem por isto baixaram a guarda, o relatório continha análises e reflexões com um tom negativo quanto ao futuro da economia brasileira. Basicamente, o conjunto de fatos levantados foram os que culminaram na maior crise da história da economia brasileira. Pela assertividade, cabe aqui, abordar uma a uma.

O primeiro ponto tratava do crescimento brasileiro que, mesmo sendo pujante ao longo dos anos 2004 até 2008, foi bem menor do que na década de 70. Comparando com países mais desenvolvidos é mostrado que naquele tempo o Brasil avançou pouco na questão da renda per capta.

O segundo ponto abordado foi o fortalecimento do Estado e o aumento de sua interferência na economia. De fato, desde o tempo do FHC, o governo começou a aumentar impostos e a burocracia através das agências regulamentadoras. Na prática, isto é aumento do Estado. Contudo, utilizando a desculpa da crise do subprime o governo Lula caminhou a passos largos na tentativa de tornar o Brasil uma pequena China, onde o Estado é o grande financiador do crescimento.

A tradução destas ações foi o aumento da participação dos bancos públicos no mercado de crédito, liderados pelo BNDES. O banco se tornou o maior fornecedor de crédito às empresas e criou as “campeãs nacionais” seguindo o modelo chinês. Além disso, as estatais começaram a ter mais importância dentro dessa estratégia e a intenção foi fortalecê-las na intenção de impulsionar os investimentos em alguns setores chaves como petróleo, energia e telecomunicação[1].

A expansão de gastos, principalmente com o funcionalismo, também aparece no documento. Além do aumento do número de funcionários, tivemos um aumento expressivo nos salários. Ou seja, a despesa criada naquela época seria onerosa para os brasileiros por muitos anos. Os benefícios assistenciais, claro, também foram expandidos aumentando consideravelmente a rigidez orçamentária do governo.

Aliados ao aumento da dívida brasileira e a falta de investimento em infraestrutura, que é um dos principais motivos da baixa competitividade do país, temos o modelo Keynesiano brasileiro descrito (o relatório o chama de keynesianismo tropical). O qual o crescimento é impulsionado pelo aumento dos gastos públicos.

Desta forma, vemos que os gestores surfavam a onde da melhora econômica e euforia dos investidores internacionais com o Brasil, mas estavam atentos ao futuro da economia brasileira. Em novembro de 2009 afirmaram: “O esforço de gestão hoje passa por nos posicionarmos para defender o patrimônio dos clientes no inevitável choque de realidade que seguirá a euforia”. Então, o ano finaliza com valorização de 50,37% contra um CDI de 9,90% da cota do fundo e a expectativa de um choque de realidade no mercado brasileiro.

Já nos primeiros três meses de 2010, a percepção econômica se mantinha a mesma. Posições defensivas foram tomadas em relação ao câmbio e a aposta era no book juros e inflação esperando que com a economia muito aquecida os índices de preços disparassem.

O desempenho do fundo no primeiro semestre daquele ano foi bem próximo ao CDI, 4,62%. A gestão chama a atenção para os acontecimentos na Grécia, títulos do tesouro americano e China que foram contra as previsões dos analistas. Para o Brasil o tom foi de ironia por ver que o crescimento impulsionado por aumento de gastos e descontrole das finanças públicas estava chegando ao fim, porém nem investidores nem governo pareciam se importar.

A desaceleração da economia americana e o recomeço do processo de quantative easing faziam com que os gestores globais perdessem o medo de comprar ativos, tudo subia, dos metais às ações. No Brasil, usava-se a engenheira financeira para tornar a re-capitalização da Petrobrás em superávit primário. Esta era a visão do fundo sobre o cenário econômico externo e local. Por isto, agindo com cautela, a performance foi abaixo da esperada no terceiro trimestre.

Não obstante, o ano de 2010 termina e o sentimento do gestor era que algumas empresas na bolsa estavam caras, que a inflação apertava e o Banco Central estava mudando seu perfil de ação na condução da política monetária. A rentabilidade foi de 13,75% no ano contra um CDI de 9,74%.


[1]  Não por coincidência, são estes que têm as maiores regulações da economia.

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