Os segredos do Fundo Verde Asset – parte 5

No relatório de janeiro de 2007, tínhamos mais indicações importantes, que vistas hoje poderíamos dizer que o fundo sabia exatamente para onde o Brasil iria. Alheio a todo o otimismo, a situação fiscal foi definida como “show de horrores”. Infelizmente, para os brasileiros, o gestor mostrou assertividade nesta definição.

O gestor já alertava para um aumento maior das despesas frente às receitas pelo décimo segundo ano consecutivo. Além disso, o aumento nas receitas era proveniente em grande parte do aumento dos dividendos e dos royalties. A alta carga tributária também era um motivo de preocupação, porque o país, segundo ele, iria perder a competitividade ao passar do tempo.

O ano de 2007 realmente começou bastante agitado, pois em fevereiro os mercados começaram a realizar os lucros, como esperava a administração do fundo.[1] Outro ponto levantado foram os excessos de IPO, que sem os devidos cuidados poderiam trazer grandes prejuízos para os investidores por conta da análise pouco profunda dos dados e consequente sobrevalorização dos ativos. O risco sobre a liquidez baixa destes ativos também era destaque, porque qualquer mudança de humor no mercado poderia penar o investidor.

No entanto, a realização foi passageira. Em abril, o desempenho da carteira de ações era excelente 21%. O fundo rendia 6,27% contra 4,0% do CDI. A aposta em uma inflação maior que a esperada pelo mercado acabou trazendo que trouxe perdas significativas. Esta expectativa justificava-se pelo crescimento acelerado aliado com a infraestrutura precário e burocracia, em algum momento a inflação apareceria. No fim do segundo semestre, isto aconteceu. O fundo, claro, obteve ganhos. Fechou o primeiro semestre com 15,20% ou 250% do CDI de valorização.

Então, a crise do mercado imobiliário americano começava a afetar o mercado e viraria o tema central dos relatórios do terceiro trimestre de 2007. O Fundo Verde percebeu, assim como o restante dos investidores após um tempo, que o mercado foi negligente ao emprestar dinheiro exigindo baixas garantias. Embora os ânimos tenham se acalmado com as declarações do Fed[2], eram vistas “consequências inimagináveis sobre o futuro”.

No lado doméstico, a economia continuava indo bem, consumo das famílias crescendo, juros próximos ao equilíbrio e ambiente externo proporcionado pela China ideal. Contudo, a expectativa futura se mantinha cética quanto à inflação e as contas do governo.

Outubro de 2007 mais uma mudança de estratégia. A visão pessimista em relação à economia norte-americana e um possível contágio da crise imobiliária se desfazem.[3] Motivado pelas concessões de estradas é aumentada a participação em bolsa e, esperando um aumento da taxa de juros no curto prazo, aumentada a posição de inflação implícita[4]. O ano fecha com impressionantes 30,74% de valorização do fundo.

As reflexões realizadas para o ano de 2008 no relatório de dezembro se mantiveram para os primeiros meses do ano. Embora o tom fosse otimista em relação ao crescimento econômico brasileiro, seguiam-se as preocupações diante da falta de infraestrutura do país – o que poderia aumentar a inflação projetada para o ano – e queda na balança comercial.

O ano de 2008 trouxe uma das maiores crises econômicas da história. Por isso, vamos transcrever uma frase que chama a atenção no último relatório de 2007: “Virou moda dizer que os EUA estregarão o nosso ano de 2008.”.

Em fevereiro, o Fundo já mostrava que estava aumentando a atenção para a situação da economia americana, pois ela dava sinais claros que a crise dos subprimers estava se formando, o pessimismo tomava conta do mercado americano. No mês seguinte, o fundo Verde teve um rendimento negativo após três anos. Não obstante, é destacada uma possível irracionalidade no mercado acionário brasileiro[5], pois este não precificava juros reais mais altos. O investidor doméstico entrava em peso na bolsa naquele período achando que a alta perduraria para sempre.[6]

Uma valorização de 13,58% foi alcançada pelo fundo ao final do primeiro semestre do fundo. Apostando no book “juros + inflação” e acertando na escolha das ações a rentabilidade novamente foi muito boa. Entretanto, os desempenhos seguintes foram muito negativos.

Com o agravamento da crise financeira internacional, que atingiu seu pico no mês de outubro, o fundo tinha um rendimento de -9,77% no ano. Nota-se nos relatórios da época a frustração do gestor com alguns erros cometidos e sua preocupação em explicar aos cotistas que a filosofia que fora vencedora até então se mantinha.

Contudo, é sabido que para o investidor é muito difícil aceitar rendimentos negativos. Por isso, em outubro muitas explicações sobre a visão do fundo e sobre os rumos da economia mundial e brasileira foram dadas.

Em suma, a administração via um momento muito oportuno para adquirir ações que estavam muito desvalorizadas. Contavam também com alguma interferência dos governos para salvar as Too Big To Fail[7]. Reconheceram que o seu desempenho quanto aos investimentos em ações ficou abaixo do que poderiam atingir, todavia, afirmaram que avaliar as ações depois dos acontecimentos é fácil, no calor do movimento do mercado decisões importantes devem ser tomadas para proteger o capital dos clientes. Destaca-se aqui a honestidade do gestor. Por fim, sem dúvidas, a crise do subprime teve características muito diferentes das demais, logo, todo o mercado foi pego de surpresa quando as consequências do dinheiro fácil distribuído por anos chegaram.

O ano da maior crise econômica da história termina com uma rentabilidade de -6,44%, só as ações tiveram queda 26,4%. Foi o primeiro ano que o fundo teve desempenho abaixo do CDI. Grandes lições ficam dos relatórios do gestor naquele ano. Além de toda a descrição do desenrolar da crise e dos seus efeitos, que infelizmente não foram previstos da melhor maneira, o último relatório revelou como o gestor estava atento a tudo que ocorria. Baseado no artigo de “Countdown to Panic” de Chris Wood, ele escreve “estamos criando uma bolha enorme (the one) para substituir todas as anteriores juntas.”

Não obstante, o cenário doméstico é visto como favorável, tanto pela relação Dívida/PIB quanto pelo sistema bancário solvente. O surpreendente foram as preocupações já com as eleições de 2010 que fizeram com que o fundo já se protegesse contra uma virada ideológica no governo e de erros nas políticas macroeconômicas. Sabemos, hoje, que foi exatamente o que aconteceu nos anos vindouros do governo Dilma.


[1] Destaque-se o já existente problema do subprime no sistema americano, que na época era visto como algo pontual e com poucas chances de atingir todo o sistema.

[2] O Fed iria socorrer o mercado para amenizar os efeitos da crise.

[3] Em 2008 o contrário se confirma e o sistema financeiro mundial entra em colapso.

[4] No mercado de títulos, podemos entender como sendo a diferença entre os juros dos títulos pré-fixados e IPCA+.

[5] No mercado financeiro quando os dados e acontecimentos apontam para um lado e os investidores continuam indo para outro, seja comprando ou vendendo, usa-se esta expressão.

[6] Muitos investidores iniciantes perderam suas economias, porque com a crise as principais ações perderam seu valor.

[7] Termo utilizado na época para descrever as empresas que eram consideradas muito grandes para quebrar e que deveriam ser resgatadas pelo governo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *