Os segredos do Fundo Verde Asset – parte 4

Chama a atenção no primeiro trimestre de relatórios de 2005 o desacordo dos gestores com o modo que o governo brasileiro vinha conduzindo a economia do país. No que tangia à previdência, os crescentes déficits juntamente a não modernização da economia para aumentar a produtividade e a decisão do Banco Central em manter a taxa de juros alta já começavam a incomodar. Apesar disto, o fundo já acumulava 5,97% de rentabilidade e a maior parte vinha dos hedges na renda fixa.

De abril a junho o desempenho do fundo não foi bom, sendo negativo em nos três meses e encerrando o primeiro semestre de 2005 com valorização de 3,2%. A administração admitiu ter se equivocado nas previsões e este ser o motivo do baixo desempenho do fundo. Em 2005, o mercado já estava de olho nas próximas eleições em virtude do cenário político desafiador[1] e a atitude tomada em junho foi reduzir a exposição em bolsa e comprar hedges esperando um possível agravamento da crise. No ambiente financeiro mundial, todos os sinais seguintes indicaram uma melhora.

Assim, o terceiro trimestre encerrou com alta de 6,08%. Os gestores fizeram na época um diagnóstico detalhado tanto da esfera mundial quanto doméstica. Naquele período o forte crescimento da China beneficiava o Brasil e as manobras políticas vinham esfriando o debate e críticas sobre os esquemas de corrupção do governo Lula.

Deste modo, 2005 encerrou[2] com o fundo rendendo um pouco mais que o CDI, 107% mais precisamente. O otimismo do mundo quanto ao futuro das economias emergentes foi o que impulsionou o mercado brasileiro. E, uma vez que, o fundo Verde esteve cauteloso quanto às medidas tomadas no Brasil pelo BC e os desdobramentos da crise política, o resultado entregue também foi modesto.

No ano seguinte, as bolsas mundiais voltaram a recuperar-se e o fundo obteve até abril 13,07% de rentabilidade ou 253,1% frente à taxa de juros. Todavia, a gestão sinalizou uma mudança de estratégia, pois via que as ações brasileiras estavam caras, então, a exposição à bolsa foi reduzida apostando em títulos atrelados à inflação. A justificativa era a preocupação com as contas do governo no longo prazo. No período, os Treasuries americanos também subiram para taxas maiores de 5%.

As incertezas sobre a economia americana influenciaram os mercados entre junho e agosto. O fundo aproveitou o momento de pânico nos mercado e fez compras em ações como meio de tentar garantir uma rentabilidade futura maior. Em agosto de 2006, as incertezas quase acabaram e os mercados começavam a se recuperar. Apenas uma coisa permanecia: a preocupação com as contas públicas.

O ano de 2006 foi marcado pela reeleição de Lula, que na época enfrentava o escândalo do mensalão. O mercado na época tinha mais simpatia por Geraldo Alckmin, pois a ala sindicalista do PT vinha se aproximando da administração federal e as consequências já apareciam nas contas públicas. Contudo, o cenário externo muito favorável ao Brasil mantinha a inflação e o crescimento econômico pertos do ideal.[3]

Assim, o Fundo Verde subiu 27,74% no ano de 2006 e também completou 10 anos de existência. Foi no final daquele ano que o Credit Suisse tornou-se sócio do fundo. Quanto aos relatórios é importante destacar que a visão do gestor contrariava o mainstream do mercado.

Após a reeleição do presidente, o mercado ficou muito animado com o futuro do Brasil. Era consenso que reformas precisariam ser feitas e que não havia como o governo tomar outro caminho. Embora não houvesse garantia alguma que elas aconteceriam, os investidores foram com apetite comprar ações. Na contramão, o fundo comprou seguros muito baratos e encerrou posições em empresas menos sólidas.

O ano seguinte, 2007, começa e a administração mostrava uma visão cética que, apesar de ver a globalização, aumento de escala e tecnologia impulsionarem o crescimento da economia mundial principalmente nos países emergentes, fazia um alerta para os déficits fiscais e, como ele chama, “a chavinização da América Latina”. Mais de dez anos depois, sabemos o que ele queria dizer. Entretanto, aqui o importante é notar como a leitura do que estava acontecendo tanto na economia quanto na política era sempre racional, isto com certeza explica o excelente desempenho do fundo.


[1] As denúncias do escândalo de corrupção envolvendo os Correios que depois se desdobraria no Mensalão eram o destaque no noticiário.

[2] Em 2005, haviam rumores de um estouro da bolha imobiliária americana.

[3] A China consumia cada vez mais commodities brasileiras.

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