Os segredos do Fundo Verde Asset – parte 3

No ano seguinte, a gestão já via sinais de arrefecimento no bull market do mercado brasileiro. E, em fevereiro de 2004, com algumas perdas em moeda estrangeira, o resultado foi negativo, -0,59%. No entanto, o relatório veio com explicações sobre a estratégia que o fundo adotaria naquele momento. Então, como existia uma percepção de um futuro nebuloso, os gestores escolheram comprar seguros para garantir a rentabilidade no longo prazo, embora isto significasse um retorno abaixo dos padrões que os seus clientes acostumaram-se a receber no curto prazo.

O aumento de juros por parte do Banco Central Americano (Fed), as incertezas quanto ao crescimento da China e o aumento dos gastos domésticos do governo brasileiro trouxeram, em abril de 2004, um relatório detalhado que procurou expressar todas as visões e opiniões acerca dos rumos que a economia mundial tomaria.

Neste relatório, os gestores se mostravam tão preocupados com uma crise que era esperada no mercado financeiro em virtude do aumento da taxa de juros americano. Quanto a China, apesar da ciência do risco que uma forte desaceleração representaria, o fundo usou um tom até otimista para descrever a situação baseado nos dados que tinha a disposição – os dados apontavam para a possibilidade de um momento complicado para a economia chinesa.

No cenário doméstico, os primeiros casos de corrupção envolvendo pessoas importantes do governo pesavam sobre a bolsa de valores e risco Brasil[1]. Os gastos sociais eram outros elementos que começam a preocupar o mercado. Assim, a filosofia que regia as atuações do fundo foi reforçada: não seguir a manada. Por este motivo, foram adquiridos mais seguros e a carteira foi diversificada.

O primeiro semestre de 2004 o fundo fechou com uma rentabilidade menor do que o CDI, 6,07% contra 7,57%. Embora o desempenho tenha ficado abaixo do CDI, a carteira de ações teve alta de 4,59% em relação à baixa do Ibovespa de 2,77%. Contudo, no final de junho a perspectiva do cenário econômico era mais otimista apontando para um segundo semestre melhor para a economia brasileira.

O ciclo de boa rentabilidade iniciado em maio perdurou até setembro daquele ano. Em razão disso, algumas previsões se mostraram acertadas e a estratégia adotada pela gestão, principalmente no mercado de ações, deu grandes resultados. O erro na leitura da trajetória do Risco Brasil e a preocupação com as contas do governo que tinham seu gasto impulsionado pelas crescentes políticas assistencialistas[2] são destaques nos relatórios.

O mês de outubro foi marcado por uma mudança de postura da gestão. A visão de que um cenário doméstico mais desafiador estava logo adiante era resultado de uma perspectiva de redução no ritmo de crescimento da economia, o qual era justificado pelo atingimento do limite de endividamento das famílias para compra de bens, uma possível ruptura entre o PT e a responsabilidade fiscal e entrelace mais consistente entre PT e o assistencialismo desenfreado.

Apesar de uma rentabilidade positiva em novembro de 2004 (1,68%), o fundo Verde teve perdas importantes nos hedges comprados, pois com a reeleição de Bush nos Estados Unidos e com a demissão do presidente do BNDES as perspectivas negativas não se confirmaram e as bolsas no mundo inteiro subiram enquanto o dólar caiu em relação às moedas dos países emergentes. O real mostrava muita força neste período.[3]

Deste modo, o fundo encerrou o ano com uma rentabilidade de 22,50%. Os custos com hedges também foram alto, 4,1%, mas a administração destacou que esta estratégia foi a que garantiu ao fundo excelentes desempenhos em outros anos, logo, não via problema nisto. O desempenho da carteira de ações no ano foi excepcional seis ações haviam subido mais de 100%.[4]


[1] O escândalo na área de marketing do Banco do Brasil vinha à tona e envolvia Henrique Pizzolato e Ivan Guimarães, ligados os Partido dos Trabalhadores e ao presidente Lula.

[2] O programa do Bolso Família havia virado lei e era expandido para atingir o máximo de pessoas possíveis.

[3] Além do bom momento da economia brasileira pesava também o fato dos Estados Unidos da América estar em guerra no Oriente Médio, o que fazia com que o dólar se desvalorizasse frente todas as moedas.

[4] A saber: Banco do Brasil Bonus C, Acesita PN, Unipar PNB, Belgo Mineira PN, AES Tiete ON e Brasken PNA.

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