Os segredos do Fundo Verde Asset – parte 2

Fundo verde

Nos meses seguintes do ano de 2001, as transações com moeda estrangeira eram os principais ativos comentados nos relatórios. Pois, havia a crença de que o Banco Central fosse intervir no câmbio para segurar a inflação. Por isso, 31% da carteira estavam investidos na moeda estrangeira.

No fatídico dia 11 de setembro de 2001, frente ao ataque terrorista em Nova York, o Fundo Verde aumentou a exposição ao dólar para 70% da carteira. O que se mostrou um acerto, porque o fundo fechou o ano com valorização 30,17%. O CDI na época era de 17,29%. O dólar ainda representava 40% do patrimônio líquido e, sob uma visão otimista e de longo prazo, ações foram adquiridas na bolsa.

Em um ano eleitoral que marcou a história do Brasil[1], a valorização de 3,49% da carteira do fundo em um momento o qual a bolsa caia 7,18% seria mais um indicativo dos resultados benéficos de uma dissonância entre a visão da gestão com o consenso do mercado. O otimismo reinante era visto com muito desconfiança. Não por menos, esta trouxe ótimos ganhos ao fundo tanto via câmbio, em virtude da piora da inflação, quanto por causa do cenário da Argentina.[2]

Assim, fevereiro foi um mês marcado pelas eleições. Conforme era mostrado o crescimento do candidato do governo nas pesquisas o dinheiro fluía para bolsa. Valorizando-a e fazendo também com que o dólar e juros caíssem. Bem posicionado, o desempenho do Verde foi de 1,58% no mês ou 182% CDI na época.

No mês seguinte, ficou clara a estratégia do fundo: sempre carregar seguros para caso acontecesse algum evento não previsto ou interpretado de forma errônea. Este é um dos motivos que pode explicar a boa performance. A aposta do mês fora na alocação em bradies, títulos de dívida. Os seguros adquiridos em março trouxeram um ótimo retorno em abril, o aumento na percepção de risco fez com que os juros futuros subissem.

O relatório do sexto mês de 2002 mostrou a estratégia adotada pelos gestores no ano. Acreditando na subida de juros no período posterior as eleições, o fundo alocou o seu capital em instrumentos que permitiam assegurar o patrimônio dos cotistas, como opções. Além disso, estavam comprados em dólar. O deságio percebido na curva de juros somado ao desconto de 60% dos bradies foram o que motivaram a continuidade da posição neste ativo. Destaca-se também, a visão de longo prazo em ações que motivaram, mesmo com a forte queda do Ibovespa, a manutenção das posições compradas em empresas que tinham boas perspectivas nos anos vindouros. O desempenho acumulado em 2002 era de 19,38%.

Agosto trouxe uma mudança no cenário eleitoral, como os gestores estavam bem pessimistas quanto aos riscos eleitorais, a subida nas pesquisas do candidato governista na época, José Serra, melhorou o humor do mercado e as perdas foram inevitáveis. O mês fechou com uma rentabilidade de -1,80%.

As eleições de 2002 terminam, outro mês chega ao fim, o resultado vem com espetaculares 12,06% de valorização ou 735% sobre o CDI. A justificativa, segundo o relatório, foi a aposta em ativos que fundamentalmente estavam muito baratos, principalmente, na bolsa de valores. A volta dos investidores estrangeiros para o mercado nacional valorizou praticamente tudo no mercado e fez que o Ibovespa subisse 18,65%.

O ano emblemático para o Brasil finaliza com o fundo Verde obtendo uma rentabilidade de 48,71% no ano. As posições defensivas, o olhar nos fundamentos e não em expectativas momentâneas foram os catalizadores deste desempenho muito acima da média.

Nos três primeiros meses de um governo declaradamente de esquerda e a guerra do EUA no Iraque iniciaram uma trajetória de queda no dólar. O fundo, posicionado principalmente em títulos da dívida e bolsa, acumulou 8,04% de lucros no período. Desta maneira, no final do primeiro trimestre, o fundo fechou algumas posições lucrativas por vislumbrar no horizonte dificuldades de aprovação nas reformas que o mercado ainda não precificara.

Percebendo, em meados de abril de 2003, seu erro de posicionamento a gestão fechou as posições cambiais e adquiriu hedges para se proteger das incertezas que pairavam a economia nacional e global. Esta era influenciada pela guerra no Oriente Médio e aquela pela situação econômica doméstica. Por isso, aproveitaram o otimismo geral do mercado e o baixo preço de aquisição das opções, que funcionariam como hedge. A boa performance das ações foi o que garantiu a rentabilidade nestes dos meses.

Em junho, a gestão declarou ter acertado na estratégia ao fazer hedge nas máximas, pois o mercado precificou o risco que antes ignorava e a carteira rendeu impressionantes 7,5% no mês.

No terceiro trimestre daquele ano, o fundo ficou receoso com a aprovação das reformas que estavam sendo votadas no Congresso. Balizado nos fatos, mesmo observando a melhora de alguns indicadores da economia brasileira, o gestor não se empolgou com o otimismo do mercado, entretanto, as posições em ações e câmbio trouxeram bom rendimento para a carteira. Diante disso, no trimestre foram destaque as ações como Sadia, Comgás e CSN.[3]

Em outubro, o fundo já expressava sua tranquilidade quanto a melhora econômica do Brasil, nem a demora nas aprovações das reformas parecia incomodar mais. Por conseguinte, destacou-se a queda de mais de 5% no Ibovespa em um dia. O ganho de 3,23% no mês foi impulsionado novamente pelo portfólio de ações escolhidos, que na sua maioria ainda eram de empresas que existem nos dias atuais. Vale destacar que a afirmação que a participação de ações na carteira do fundo ficara historicamente entre 25% e 40% do capital. Desse modo, a gestão manteve-se comprando seguros para proteger o dinheiro dos cotistas.

O mês de novembro, o destaque não foi mais um bom desempenho, mas, sim, do erro de leitura do corte de juros feito pelo Banco Central.  O corte foi maior que o esperado e surpreendeu os gestores. Assim, o Fundo Verde fechou 2003 com uma alta de 42,18% no valor da cota confirmando que a aposta em Bolsa de Valores foi a mais acertada. No final do relatório de dezembro, são especificados os custos do fundo com seguros, pouco mais de 2% e a rentabilidade acumulada em 7 anos: 1.288,8% contra 305,1% do CDI, 222,7% do Ibovespa e 177,7% do dólar.


[1] Naquele ano o PT tomaria ao poder com Luís Inácio Lula da Silva.

[2] Em 24 de dezembro de 2001 o governo argentino anunciava o maior calote da história. A dívida externa que não seria paga era de US$ 132 bilhões.

[3] Elas eram consideradas de segunda na linha na época, pois eram privadas, com baixa liquidez e eram de mercados não muito regulados pelo governo.

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