Os segredos do Fundo Verde Asset – parte 1

Fundo Verde

Começaremos nesta semana a apresentar um resumo das cartas da administração do fundo Verde Asset ao longo dos anos. O excelente retorno aos seus cotistas foi o que nos levou a fazer este trabalho. A intenção é tentar evidenciar ao leitor quais foram os segredos por trás das tomadas de decisões que fizeram este fundo multimercado ser um dos melhores de todos os tempos do Brasil.

O Verde é um dos fundos multimercados mais antigos e, talvez, um dos mais conhecidos do país. Ao longo do tempo, impressiona lucidez da administração acerca dos acontecimentos do ambiente financeiro. Aliado à capacidade de ação fez, e continua fazendo, o fundo ter um desempenho consistente.

Para não se ater à simplicidade da observância dos números históricos, iremos analisar os relatórios disponibilizados publicamente pelo fundo com o intuito de ter uma visão mais ampla sobre os pilares que sustentam o excelente resultado histórico. Não obstante, desde a sua criação a meta foi bater o rendimento do CDI.

Iniciamos a narrativa dos relatórios gerenciais em janeiro de 1999, exatamente no período o qual tivemos uma mudança de política cambial no Brasil. A pressão sobre as reservas do Banco Central era grande, a manutenção da cotação do dólar dentro das bandas definidas tornava-se um desafio na medida em que as contas do governo e fluxo de saída de moeda estrangeira não contribuíam para a valorização cambial do real.[1]

No primeiro relatório analisado, era evidente que a situação pela qual o país atravessava era entendida pelo gestor, a rentabilidade até então era de 66,92%. O posicionamento era em favor da valorização do dólar. O café foi outro ativo negociado durante todo o ano, mesmo oscilando entre perdas e ganhos, ele auxiliava nos lucros do fundo.[2]

Em março, o sentimento era que havia um otimismo exagerado no mercado. Dois meses depois, ocorre a convergências da percepção do mercado com a do fundo. A bolsa começa a cair quando os investidores percebem o tamanho das dificuldades do governo para realizar as reformas necessárias que sanariam os problemas fiscais do país.

Embora em setembro a visão não só da gestão bem como do mercado é de pessimismo, o fundo adquire algumas posições compradas na Bolsa de Valores, por crer que alguns ativos poderiam estar subvalorizados. Decisão correta. Pois no último mês daquele ano as expectativas para inflação melhoram, os compradores voltam ao mercado fazendo com que as ações subam e o dólar ceda. Cabe destacar, que as mudanças relatadas no cenário também não eram esperadas pela administração do fundo, porém os acertos nos papéis adquiridos fizeram o fundo ter um ótimo desempenho. Deste modo, o fundo fecha o ano de 1999 com uma valorização de 135,70%.

No ano seguinte, as habilidades do gestor vão ficando mais evidentes. Ao posicionar-se em ações, ele usufrui em junho de um belo desempenho. Quando a bolsa chega próxima das máximas daquele ano, o fundo teve um retorno de 240% do CDI.

A sequência de bons resultados é interrompida em julho de 2000, a rentabilidade mensal de -0,68% foi a pior obtida pelo fundo até então. Segundo o relatório, o gestor tomou posições de proteção contra a deterioração interna, comprando dólares e juros futuros. Contudo, no mês vindouro, a leitura que, primeiramente, parecia equivocada, mostrou-se correta entregando um resultado de 295% do CDI.

A partir de setembro, percebendo a fragilidade do mercado financeira, acertadamente o fundo posicionou-se vendido em bolsa. Deste modo, fechou o ano 2000 com valorização de 28,20% ou 162,72% do CDI.[3]

No primeiro relatório de 2001 temos uma verdadeira aula de economia. Nele são analisadas as ações do FED quanto à redução de juros, bem como, as ações do Banco Central Brasileiro. Embora o Brasil estivesse passando por um momento favorável na economia e o ambiente externo de certa forma estar ajudando o BC a baixar as taxas de juros, percebe-se como a gestão já vislumbra um cenário não tão favorável quanto o consenso do mercado quando pontua que um tempo mais longo de recuperação da economia americana poderia prejudicar a brasileira.  

Em março as tensões econômicas na Argentina aumentam, o presidente do país vizinho nomeia três ministros da fazenda em um mês, os mercados reagem e sofrem. O Ibovespa cai 11,6%. Diante do cenário turbulento, o fundo corre para fechar posições ainda com algum lucro e outras posições de proteção (hedge).

O mais interessante neste relatório é como é possível notar uma visão próxima ao que Nassim Taleb iria expor em seus livros tempos depois: “Durante este mês desfizemos a posição de hedge em dólares, que carregávamos desde setembro, quando o dólar estava em patamares de R$ 1,80. Nesta época acreditávamos que uma posição comprada em dólares teria boas chances de ganho no médio prazo, e pouco a perder, caso nossas expectativas não se comprovassem felizmente estávamos certos. Nós carregamos a posição até o meio de março, vendendo o dólar a R$ 2,12.”

É evidente, aqui, que os gestores tinham total domínio das ações que deveriam tomar segundo a estratégia estabelecida para o médio prazo e, por isso, estavam preparados para um evento que pudesse acabar com o bom momento do mercado. Embora a instabilidade no mês tenha sido alta, chegou a ser definida no relatório Claritas Hedge FIF de 06/04/2001 com a famosa lei de Murphy: “Uma situação nunca é tão ruim que não possa piorar”, a disciplina e aparente calma da equipe são destaques. Deste modo, afirmam que os ativos estavam baratos e a bolsa não deveria permanecer em patamares tão baixos por muito tempo.


[1]As reservas internacionais eram de apenas US$36 bilhões de dólares em janeiro de 1999. Enquanto a dívida externa era de US$ 40,4 bilhões. O câmbio passou a ser variável em 18 de janeiro de 1999.

[2] Na época, operava no mercado de commodities, ao passar dos anos vimos que este mercado foi pouquíssimo citado, acreditamos que ele perdeu espaço para o mercado internacional de ações e mercado de juros.

[3] A queda da bolsa brasileira em 2000 foi de -10,72% e houve o estouro da bolha das empresas “ponto com” nos EUA, o índice Nasdaq caiu -39.29% naquele ano.

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