Dissídio, moedicídio do salaricídio

Dissídio, qualquer um que já tenha sido funcionário na vida, é o aumento coletivo negociado entre patrões e empregados (aliás, uma das poucas funções realmente úteis dos Sindicatos) para a reposição salarial. Na teoria, se a inflação foi 5%, o dissídio é 5%, logo o dissídio compensa a inflação? Menos que isso perde-se poder de compra. Mais que isso, tem-se um aumento real de salário.

Só que não.

Primeiro porque poucos sindicatos e poucas categorias de trabalhadores têm força para conseguir algo do seu patrão. O simples e singelo motivo é que o mar não está para peixe no desemprego, nem a empresa nada em dinheiros. É melhor perder poder de compra  que perder o emprego e todo o poder de compra!!!

dragão inflação dissídio

Segundo, porque os índices de inflação, data vênia, são médias estatísticas. É perfeitamente possível num IPCA de 5% você estar morando num lugar de inflação real a 8%. Quer um exemplo? Se abrir um Shopping perto de sua casa e alguns condomínios mais caros, a inflação local vai acelerar pelo maior poder de compra local dos novos moradores. O mundo perfeito seria onde os habitantes da Vila Nova Conceição, bairro de maior renda per capita paulistano, comprassem em Marsilac, o seu oposto em renda. Vá num mercado em Higienópolis e noutro no Grajaú e veja a diferença.

Quer outro exemplo? Em dezembro, quando a décima-terceira fatia da pizza salarial é servida, os preços todos encarecem, não? Pois é. Dinheiro na mão é vendaval. A inflação em dezembro é sempre mais severa que a média anual.

Além do mais, tudo depende dos setores. Se a inflação dos alimentos foi maior que a dos serviços de lazer, por exemplo, uma família de baixa renda, que consome mais alimentos que lazer, vai sentir uma inflação maior nas costas, uma maior perda do poder de compra. Chama-se efeito Cantillon a constatação de que a inflação não é uniforme. A inflação é cruel porque todos querem vencê-la, e setores que reajustam acima da inflação retiram poder real daqueles que não conseguem. O problema é que a inflação, assim como a órbita da Terra, só é compreendida por sua média num longo período.

Eles são cruéis para a economia, mas numa economia inflacionária como a brasileira, não tê-los é suicídio financeiro, porém o dissídio compensa a inflação.  Eles são reparo e causa da inflação. No melhor dos mundos, ninguém teria aumento, que aumentasse preço iria baixar na curva da elasticidade, perder mercado e retornar os preços. Mas isso é num mundo ideal de microeconomia boba de livro-texto. Quem quiser não ter dissídio, para nobremente vencer a inflação com o bolso, pode se habilitar.

Os americanos com que trabalhei diziam revoltados que “na filial do Brasil se tem aumento todo ano” sem entender o dissídio para compensa a inflação. Com fina ironia, deveria perguntar se o câmbio dos seus lucros e os preços dos produtos vendidos no Brasil estavam os mesmos…

 

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