A Prata nas moedas do Rei

Diz o livrinho de economia que a moeda tem três funções: unidade de conta, intermediária de trocas e reserva de valor.

O que é moeda você já sabe, é o poderoso Real. Quer dizer, não tão poderoso comparado ao imperador dólar e ao euro sem fronteiras, mas para quem já viveu a época dos cruzados e cruzeiros, Deus salve o Real. Minha única objeção ao real é seu plural: deveria ser réis, não reais. Mais retrô, sabe?

Que a moeda seja unidade de conta, basta saber somar. Intermediário de trocas também. É possível trocar sem moeda, mas dá um trabalhão, que o digam os velhos fenícios, quando no litoral do Egito ofereciam um belo vaso grego e recebiam uma oferta de duas ânforas de vinho e um novelo de lã. “Puxa vida” – dizia o fenício de Tiro – “mês passado eu vendi um vaso deste por apenas uma ânfora e três novelos de lã. E agora, aceito ou não???”.

AS ORIGENS DA MOEDA

Dizem que a moeda foi inventada na Lídia, no reino do riquíssimo e lendário Rei Creso, lá no meio da atual Turquia, no tempo em que a bisavó de Homero era uma casta donzela. Ao criar a moeda, como intermediário de troca, nosso fenício poderia dizer ao egípcio: “Vendo por dez dracmas atenienses, mas para você, Amenemet, velho cliente, faço por apenas seis dracmas”. O egípcio, como não tinha moeda ateniense nem lídia, ofereceria sem jeito as duas ânforas de vinho e o novelo, argumentando ser finíssima lã do Médio Egito. Nosso fenício, então, faria uma conta mental de que cada ânfora poderia ser revendida a quatro dracmas e o novelo três dracmas no mercado de Tiro.

Onze dracmas! Negocião! Aceita na hora. Mesmo que a moeda em si não fosse empregada, o valor em moeda foi usado de intermediário de troca e unidade de conta. O velho Creso sabia das coisas.

A PERDA DE VALOR DA MOEDA

O problema é que a moeda é reserva de valor, mas é uma má reserva de valor, assim como a concha da mão é uma má reserva de água, sempre escapa entre os dedos. Um determinado valor em moeda, mesmo em moeda tida como forte, sofre com um fenômeno chamado a inflação. Mesmo moderada, a inflação destrói o poder de reserva de valor da moeda.


A moeda também perde valor porque depende da cunhagem e emissão estatal. Ou seja, do governo. E governos estão preocupados com o deles, não com o do cidadão, muito menos com sua economia. No passado, os imperadores romanos e reis medievais da França diminuíam o teor de ouro e prata nas moedas: era cunhando mais e pagando mais soldados. Como ninguém era bobo, os preços aumentavam quando expressos em moeda. No Império Romano a coisa ficou tão descarada que as moedas romanas dos maus tempos inflacionários, mesmo passados 1700 anos, são baratas para um colecionador comprar, tantas moedas lixo que foram cunhadas.

A ARTE MODERNA DE RETIRAR VALOR DA MOEDA

Hoje em dia a coisa é mais sutil. O governo não diminui o “ouro” nas notas de real (nem os americanos nas de dólar, o padrão ouro foi abandonado) mas tem uma série de estratégias para aumentar a oferta de moeda na economia. Encaixes compulsórios, taxas de juros, ou mesmo a pura e simples ativação das prensas da casa da moeda. Logicamente, se ninguém era bobo na Idade Média quando um Filipe IV punha cada vez menos prata nas suas moedinhas, muito menos hoje em dia: um governo que imprima mais dinheiro gerará consequências catastróficas, e pode inclusive ser derrubado politicamente.

Portanto, manter as economias como moeda, seja debaixo do colchão, seja como depósito bancário, é perder reserva de valor. Volta e meia se acham tesouros de moedas romanas das boas, em ouro ou prata, que algum ricaço enterrou para fugir dos bárbaros (e pelo jeito não escapou). Estas moedas perderam totalmente seu valor de curso, ainda que tenham grande valor histórico. Mas para achar um tesouro romano, ou você pesa ele no seu valor em ouro, ou vende por euro sonante. Na verdade, não faz nada, provavelmente algum governo vai te tomar o tesouro, “tombar” como patrimônio histórico e metê-lo num museu.

Ou seja, fuja para onde for, a moeda perde reserva de valor. Quantas vezes não ouvimos histórias de idosos que guardaram na meia várias notas e moedas, economias de uma vida, e, depois de sua morte, seus herdeiros acharão mil-reís ou cruzados valiosos apenas para colecionadores!

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