SP, RO e RJ, o rap subindo a Ladeira da Vida, com Lourena, San Joe e Ciro

NOS BASTIDORES COM CIRO, LOURENA E SAN JOE

 

A gravação de Ladeira da Vida estava marcada para umas 10h, mas não era nem 9h e ele já estava na entrada da vila onde fica o Rap Box. San Joe tava sentado no skate, ouvindo um som no fone, abriu um sorrisão e veio cumprimentar.

Vindo direto de Itaquaquecetuba até a Santa Cruz, ele não perdeu tempo, acordou cedão, pegou mais de uma hora de busão, trem, metrô e, mesmo assim, chegou antes que todo mundo.

Enquanto a galera abria o estúdio e fazia aquele monte de equipamento funcionar, San Joe sentou no canto do sofá, colocou o fone e ficou concentrado no som que ia cantar mais tarde. “A sonoridade me leva para lugares além da forma de pensar e de agir, minha cabeça voa. E é aí que vem as criatividades. Quando vou ver eu já fui, passou e nem viu, sabe?”

“Eu fico bem focado. Tento ao máximo entrar dentro de mim, cantar com a alma e deixar que a voz faça o resto”, ele disse antes de ir para o canto sussurrar a letra apenas para ele mesmo ouvir… “Nem me perguntou meu nome, disse que me amava…”

Pouco depois, bate na porta um cara magro, cheio de tatuagem, dread amarrado na cabeça e uma voz bem rouca. Como se fosse de casa, Ciro Medeiros entrou no Rap Box, cumprimentou geral, deu um salve no outro Mc e sentou com ele do outro lado do sofá.

Norte e sudeste nunca estiveram tão perto. Lá de Nova Floresta, zona sul de Porto Velho, Rondônia, veio Ciro. Há 4 anos em São Paulo, ele disse que agora tá playboy morando no Itaim, mesmo assim, não deixou o sotaque de lado, mostrando sua raiz porto velhense.

San Joe mais uma vez se mostrou animado por trabalhar em um lugar com tanta estrutura e profissionalismo como o Casa1, produtora responsável pelo Rap Box.  “É totalmente diferente de outras fitas, desde a forma de gravar, a atenção, tudo. É trabalho mesmo, é rap, é feito de coração”, disse o paulista.

Depois de 3 mil km na sola do pé, Ciro também passou por várias até chegar na Santa Cruz naquela manhã ensolarada de outono. Ele quase largou a música durante a caminhada. “Vim pra São Paulo pela oportunidade na música que supostamente eu teria. Mas quando cheguei não conhecia ninguém, não tinha um meio de sustento e nem espaço pra tocar”, ele disse.

“Foi bem difícil o começo, passei um pouco de fome, me virei vendendo algumas coisas e fui atrás do meu pra conseguir me sustentar. Consegui um emprego de garçom e cheguei a me esquecer da música. Mas ela me puxou de volta e eu acabei me jogando de cabeça”, conclui.

“Tudo está em constante mudança, ainda bem né? Eu sempre pensei em música como uma transmissão de algo e eu quero compartilhar sempre o meu melhor. Chegar até o Rap Box foi maravilhoso, tipo sonho, mas sou bem pé no chão, sempre fui. Eu sinto, mas não me deixo consumir, seja pela coisa boa ou ruim.” – Ciro

“Olha ela vindo aí!” Segundos depois toca a campainha e Lourena, vindo direto de Madureira, zona norte do Rio, entra para fechar o bonde interestadual que ia gravar no dia. “Eu tô bem de chinelo?”, ela pergunta com aquele jeitão carioca alegre de ser. A Mc estava preocupada com a roupa que usaria na hora de gravar o clipe. Todos concordaram que os panos estavam ótimos pro som, só não serviriam para andar de skate – ela arriscou algumas manobras no carrinho do San Joe, mas não rolou… No final, como se estivesse na praia, Lourena deixou os chinelos de lado para gravar o clipe.

 

SP – RO – RJ

Os três Estados estavam muito bem representados ali dentro do estúdio. A ideia era que a união interestadual fizesse um som completo, voz, beat e banda. Depois de cada um treinar suas linhas, geral se juntou no estúdio com os músicos e surgiu essa obra linda. Cavaquinho, violão, baixo, cuíca e atabaque chegaram junto com o beat pra sair esse sonzão!

“É um bagulho muito louco você gravar com pessoas que nunca viu, mas que estão na música, entendem o que é ritmo e sabem como fazer. Isso é uma sintonia tão grande que é como montar um edifício enorme. “Nossa, olha o que a gente fez!”, dá orgulho, saca? Foi muito daora gravar com a Lourena e com o Ciro, são duas pessoas muito legais de mente, alma, espírito, pessoa também, são excelentes, sem palavras.” – San Joe

À frente da percussão tava Guto, ou Bocão, como é conhecido por causa do sorriso que tá sempre estampado no rosto. “O Léo me chamou e eu fui lá sem saber com quem eu ia tocar, mas no final foi maior prazer trabalhar com aquela tribo.” Bocão tá no corre da música a muito tempo, já tocou com Racionais, Criolo, Paula Lima, Jorge Ben e a lista quase não tem fim.

Mesmo já tendo tocado com “veteranos”, ele se divertiu naquela tarde. “Um povo muito educado e um povo timbrado na maloca de pai Oxalá. Todos simples, mas ao mesmo tempo eles são um fuzil de Oxalá.”

Com a arma do Mc na mão, San Joe, Lourena e Ciro desceram bala com rimas na Ladeira da Vida sempre se desviando das desilusões que podem aparecer no caminho.

“Foi uma fita muito louca da minha guia bater com a da Lourena e com a do Ciro, acho que não foi à toa, né? Nada é à toa, irmão. Nada é por acaso, sempre tem um porquê”, disse San Joe, que deu a letra do seu plano pra levar geral ladeira acima:

“É poucas, se eu consegui sair daqui, é daqui pra mais alto ainda! A minha vontade é ajudar todo mundo que estiver ao meu alcance, chegar na quebrada e fazer alguma coisa por ela, tanto na minha quanto em outras, porque o Governo nunca fez isso e não vai fazer. Se não for a gente, isso nunca vai mudar, nunca vai acontecer.”

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